Patrícia Elizabeth Ferreira Gomes Barbosa consultora e professora da Dom Helder Câmara e UFMG
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Entrevista com a Consultora e Professora Patrícia Elizabeth
A Norma de Desempenho causou uma revolução na Construção Civil brasileira desde que passou a vigorar em julho de 2013 e tende a continuar transformando o setor para melhor, principalmente no que diz respeito à sustentabilidade. A consultora e professora da Dom Helder Câmara e UFMG, Patrícia Elizabeth Ferreira Gomes Barbosa, lembra que o surgimento da norma movimentou toda a cadeia produtiva promovendo sinergia entre construtoras e indústrias. “Houve uma revolução no processo de construção e nas responsabilidades junto aos clientes. Tivemos uma movimentação muito grande das construtoras e das indústrias para se adequarem”.
“Houve uma revolução no processo de construção e nas responsabilidades junto aos clientes. Tivemos uma movimentação muito grande das construtoras e das indústrias para se adequarem”
Uma das principais mudanças foi que as construtoras estavam acostumadas com normas prescritivas, e a norma de desempenho veio definindo alguns critérios que tinham de ser atendidos no momento em que o usuário começasse a utilizar o ambiente. À época, segundo Patrícia, alguns fabricantes não detalhavam as especificações técnicas de seus produtos, e os manuais eram superficiais. A partir da vigência da norma, as construtoras começaram um movimento de exigência de garantia de qualidade dos materiais, cobrando a explicitação das informações técnicas.

Sinergia entre indústrias e construtoras
Neste momento, diversos atores da cadeia da construção civil se mobilizaram para o atendimento qualificado dos requisitos de desempenho de materiais e componentes. “Hoje os manuais são mais completos, há evidências públicas dos testes dos materiais e componentes. E assim houve a difusão do conhecimento técnico sobre os comportamentos em uso, um aliado importante para a garantia de durabilidade dos materiais e também de como desenvolver os planos de manutenabilidade das edificações habitacionais. Com a norma de desempenho, os fabricantes se qualificaram dentro do processo de qualidade, de garantia e de vida útil de projeto”, ressalta.
“A DVG Sical montou um manual completo para blocos, com a descrição detalhada dos componentes, evidenciando o atendimento aos requisitos de desempenho e explicitando os valores alcançados para cada requisito.”
Patrícia relata que fez vários trabalhos no que tange as exigências da ABNT NBR 15575 para as indústrias. Uma de suas clientes/parceiras foi a DVG Sical. “A empresa montou um manual completo para blocos, com a descrição detalhada dos componentes, evidenciando o atendimento aos requisitos de desempenho e explicitando os valores alcançados para cada requisito,” lembra.
De acordo com a consultora, algumas construtoras não têm meios para evidenciar o atendimento do desempenho de materiais e componentes. Um dos principais exemplos é a comprovação do tempo de resistência requerido ao incêndio, que é um teste caro e complicado de ser executado in site.
Neste sentido, a participação da indústria tem sido essencial na execução dos laudos e na disponibilidade de seus resultados em manuais, onde servem de entrada de projeto e comprovação do possível atendimento ao desempenho. A DVG Sical, por exemplo, fez uma série de ensaios relacionados à comprovação dos requisitos de desempenho que estão explicitados em seus manuais. O Manual completo para Blocos CCA DVG SICAL demonstra que os blocos CCA atendem aos critérios da norma de desempenho, sugerindo o tipo de produto deve ser aplicado para qual condição.
Indústrias de vários segmentos fizeram o mesmo, suprindo as dificuldades das construtoras e facilitando a adequação de projetos e estratégias construtivas à norma. “Tudo aquilo que os empreendedores precisavam comprovar, como requisitos de entrada, as indústrias incorporaram em seus manuais e laudos técnicos. Além disso, a indústria fez um papel de consultora, pois as construtoras tinham dificuldade de execução ou de aplicação de produtos. Esse foi outro momento importante, a indústria ficou mais próxima dos construtores a fim de garantir a qualidade e o desempenho esperado”, comenta.

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Mudanças na conduta do mercado
Outro aspecto que trouxe mudanças é que a norma de desempenho é dinâmica, está em atualização constante, e desencadeou a melhor definição de responsabilidades dos incorporadores, projetistas, construtores e usuários. Uma das consequências foi a mudança no relacionamento entre construtoras, incorporadoras e clientes, com o detalhamento de exigências de manutenção, informações mais completas nos manuais do proprietário e do síndico. “As empresas sérias se estruturaram processualmente e profissionalizaram essa relação pós-entrega”, comenta.
“Já participei de trabalhos em construtoras de alto padrão para que elas garantissem o nível superior da norma de desempenho em todos os requisitos. Esse tipo de empresa acredita que seus clientes não aceitariam critérios mínimos de qualidade e desempenho. E as habitações econômicas atendem a condições mínimas e até intermediárias em alguns critérios da norma de desempenho.”
O consumidor final também mudou seu comportamento. Tem cobrado, tem fomentado muito perícias pós-entrega e tem alimentado essa preocupação relacionada à qualidade da entrega final. “Já participei de trabalhos em construtoras de alto padrão para que elas garantissem o nível superior da norma de desempenho em todos os requisitos. Esse tipo de empresa acredita que seus clientes não aceitariam critérios mínimos de qualidade e desempenho. E as habitações econômicas atendem a condições mínimas e até intermediárias em alguns critérios da norma de desempenho”, conta.
Segundo Patrícia, o trabalho de adequação tem sido grande e contínuo, mas já está estabelecido no mercado. “Não é um processo estagnado, a norma é dinâmica, ela evolui com o setor. As empresas sérias seguem e estão preparadas para um esforço contínuo de evolução. Pois, como é uma norma muito extensa, quase 300 outras normas são citadas pela ABNT NBR 15575, a dinâmica de aplicação da norma tende a fomentar revisões no sentido de maior eficiência”, explica.
“A norma de desempenho já deixou uma herança muito importante dentro da construção. Ela fala que se deve atender às condições com base na vida útil da estrutura como ponto focal de durabilidade, que é no mínimo de 50 anos. Ou seja, nós temos 12 anos de vigência da norma. Ainda estamos no processo de entendimento e validação de tudo aquilo que a indústria da construção civil como um todo começou a fazer em 2013. Então a validação de todo o processo de gestão do desempenho, de todas as definições e de todas as estratégias que foram adotadas acerca da norma de desempenho, em parte, ainda estão por vir.”
As normas técnicas têm um importante papel na sociedade: o de garantir que empresas e profissionais sejam responsáveis pelas suas decisões técnicas. “Nós estamos mexendo com vidas, com sonhos. Os responsáveis técnicos de projeto, construção e incorporação trabalham com responsabilidade civil e criminal. E nós precisamos melhorar a condição de execução dos nossos projetos. E, ao atender a norma de desempenho, consegue-se atender condições de qualidade, durabilidade, manutenabilidade e sustentabilidade. A norma trouxe essa responsabilização e esse critério mais bem definido”, ressalta.
Tendências para os próximos anos
Patrícia faz parte da Comissão Nacional do Sistema de Conformidade de Materiais de Construção (Simac) e da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído ( ANTAC) e conta que as discussões nas câmaras técnicas tem sido, regularmente, sobre melhorias potenciais implementadas dentro do setor, advindas do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Hábitat (PBQP-H), do Ministério das Cidades.
“Acredito que serão implementados indicadores voltados à sustentabilidade, à durabilidade e à qualidade. A tendência é que se normatize ainda mais o setor”
Ela também participa de um projeto capitaneado pela Universidade Federal do Ceará, que envolve várias universidades do país, para discutir a implementação sistemática de Indicadores de desempenho na Construção. O trabalho foi contratado pelo PBQP-H e deve ser implementado nos próximos anos. “Acredito que serão implementados indicadores voltados à sustentabilidade, à durabilidade e à qualidade. A tendência é que se normatize ainda mais o setor”, diz.
Fora das câmaras técnicas, ainda existe um movimento das cidades e da Caixa Econômica Federal relacionado à pegada de carbono, uma questão emergente. “Em um futuro breve, acredito que tudo vai convergir para que se tenha construções mais responsáveis do ponto de vista sustentável. E para ser sustentável, as edificações têm que ter uma durabilidade mínima aceitável. Pessoalmente, acredito que a Norma de Desempenho, no seu proposito de sustentabilidade, deverá passar por uma importante revisão para incorporação destes temas latentes no mundo e na indústria da construção civil”, comenta.

